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A língua é uma das minhas maiores paixões - seja no campo da linguística seja relativa ao paladar. Este blog está centrado na primeira opção, mas de tudo um pouco pode ser encontrado aqui: leituras deleite, dicas, tira-dúvidas, análises linguísticas e tópicos de gramática normativa, curiosidades, humor e muito mais. Está esperando o quê?! Professor Diogo Xavier

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segunda-feira, 30 de maio de 2011

Enem 1998 II

Vamos comentar mais uma questão do Enem de 1998.


A discussão sobre gramática na classe está “quente”. Será que os brasileiros sabem gramática? A professora de Português propõe para debate o seguinte texto:
PRA MIM BRINCAR
Não há nada mais gostoso do que o mim sujeito de verbo no infinito. Pra mim brincar. As cariocas que não sabem gramática falam assim. Todos os brasileiros deviam de querer falar como as cariocas que não sabem gramática.
¾ As palavras mais feias da língua portuguesa são quiçá, alhures e miúde.
(BANDEIRA, Manuel. Seleta em prosa e verso. Org: Emanuel de Moraes. 4ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1986. Pág. 19)

17 Com a orientação da professora e após o debate sobre o texto de Manuel Bandeira, os alunos chegaram à
seguinte conclusão:
(A) uma das propostas mais ousadas do Modernismo foi a busca da identidade do povo brasileiro e o registro, no texto literário, da diversidade das falas brasileiras.
(B) apesar de os modernistas registrarem as falas regionais do Brasil, ainda foram preconceituosos em relação às cariocas. (nada indica isso)
(C) a tradição dos valores portugueses foi a pauta temática do movimento modernista. (pelo contrário, foi a busca da identidade nacional o "carro-chefe" do modernismo)
(D) Manuel Bandeira e os modernistas brasileiros exaltaram em seus textos o primitivismo da nação brasileira. (o primitivismo remonta a origem portuguesa, item mal visto pelo modernismo)

(E) Manuel Bandeira considera a diversidade dos falares brasileiros uma agressão à Língua Portuguesa.  (Ele, pelo contrário, critica a norma culta, considerando-a artificial e "macaqueada" da sintaxe lusíada.


No texto de Manuel Bandeira, o autor defende que o falar popular é mais "gostoso". E vejam, Bandeira morreu em 1968, e já naquela época, tinha-se a noção de que o falar popular é válido. E já naquela época, o MIM é usado como sujeito. Inclusive, hoje há falantes que, mesmo sendo considerados cultos, usam essa forma no contexto de informalidade. Se a gramática normativa fosse atualizável e atualizada, essa norma (de normal) já teria sido incorporada à gramática culta como caso facultativo. Enfim. A questão pede uma conclusão plausível sobre as afirmações de Manuel Bandeira.
Para isso, é necessário saber um pouco de literatura também. Olha a interdisciplinaridade aí. O modernisno apresenta vários exemplos de registro da diversidade cultural e linguística brasileira, reafirmando nossa identidade (uma das marcas do movimento modernista). Mário de Andrade registrou as diversas culturas e os diversos falares em Macunaíma. Da mesma forma, Bandeira, em diversos poemas, cita sua admiração pela variedade linguística popular. Oswald de Andrade ressalta a tendência (bem antiga) de, na fala, usarmos próclise no início de frase: "Me dá um cigarro". Enquanto Drummond usa o verbo TER no lugar de HAVER (outra tendência da norma popular): Tinha uma pedra no meio do caminho. Tudo isso para dizer que a letra A é a correta.

sábado, 28 de maio de 2011

ENEM 1998 e a adequação linguística

Neste post, vou comentar três questões da primeira prova do ENEM,em 1998. Um dos aspectos tratados é justamente o da variação linguística e da adequação. Aliás, questões abordando a variação linguística na perspectiva de que todas são corretas e devem se adequar à situação de comunicação aparecem nesse exame praticamente todo ano. É incrível como a mídia - a Globo, para ser mais preciso - nada comentou sobre o ENEM "deturpar a linguagem" ou "ensinar a falar errado". Enfim.
Aí vai (sublinhados - grifo meu):

Para falar e escrever bem, é preciso, além de conhecer o padrão formal da Língua Portuguesa, saber adequar o uso da linguagem ao contexto discursivo. Para exemplificar este fato, seu professor de Língua Portuguesa convida-o a ler o texto Aí, Galera, de Luís Fernando Veríssimo. No texto, o autor brinca com situações de discurso oral que fogem à expectativa do ouvinte.
Aí, Galera
Jogadores de futebol podem ser vítimas de estereotipação. Por exemplo, você pode imaginar um jogador de futebol dizendo “estereotipação” ? E, no entanto, por que não?
- Aí, campeão. Uma palavrinha pra galera.
-Minha saudação aos aficionados do clube e aos demais esportistas, aqui presentes ou no recesso dos seus lares.
- Como é?
- Aí, galera.
- Quais são as instruções do técnico?
- Nosso treinador vaticinou que, com um trabalho de contenção coordenada, com energia otimizada, na zona de preparação, aumentam as probabilidades de, recuperado o esférico, concatenarmos um contragolpe agudo com parcimônia de meios e extrema objetividade, valendo-nos da desestruturação momentânea do sistema oposto, surpreendido pela reversão inesperada do fluxo da ação.
- Ahn?
- É pra dividir no meio e ir pra cima pra pegá eles sem calça.
- Certo. Você quer dizer mais alguma coisa?
- Posso dirigir uma mensagem de caráter sentimental, algo banal, talvez mesmo previsível e piegas, a uma pessoa à qual sou ligado por razões, inclusive, genéticas?
- Pode.
- Uma saudação para a minha progenitora.
- Como é?
- Alô, mamãe!
- Estou vendo que você é um, um...
- Um jogador que confunde o entrevistador, pois não corresponde à expectativa de que o atleta seja um ser algo primitivo com dificuldade de expressão e assim sabota a estereotipação?
- Estereoquê?
- Um chato?
- Isso.
Correio Braziliense, 13/05/1998.

03 O texto retrata duas situações relacionadas que fogem à expectativa do público. São elas:
(A) a saudação do jogador aos fãs do clube, no início da entrevista, e a saudação final dirigida à sua mãe.
(B) a linguagem muito formal do jogador, inadequada à situação da entrevista, e um jogador que fala, com desenvoltura, de modo muito rebuscado.
(C) o uso da expressão “galera” , por parte do entrevistador, e da expressão “progenitora” , por parte do jogador.
(D) o desconhecimento, por parte do entrevistador, da palavra “estereotipação” , e a fala do jogador em “é pra dividir no meio e ir pra cima pra pegá eles sem calça” .
(E) o fato de os jogadores de futebol serem vítimas de estereotipação e o jogador entrevistado não corresponder ao estereótipo.
A questão afirma que há duas situações que fogem à expectativa do leitor. Como no texto há várias situações inusitadas, não vamos em busca de trechos específicos, pois não encontraremos apenas dois. Isso elimina as alternativas A (duas falas, trechos, portanto), C(usos de palavras, situações muito específicas. Há muito mais quebras de expectativa) e D (mais uma vez, trechos muito específicos). Na letra E, o fato de o jogador não corresponder ao esperiótipo é, de fato inusitado, mas o fato de jogadores serem esteriotipados não é novidade. Na alternativa B, a primeira afirmação é a de que o jogador usa uma linguagem muito formal, INADEQUADA ao contexto, quebrando uma expectativa. Verdade. A segunda 'quebra' é o fato desse jogador dominar uma linguagem tão rebuscada, fugindo ao esteriótipo. Fato. Portanto, a alternativa B responde à pergunta.

 
04 O texto mostra uma situação em que a linguagem usada é inadequada ao contexto. Considerando as diferenças entre língua oral e língua escrita, assinale a opção que representa também uma inadequação da linguagem usada ao contexto:
(A) “o carro bateu e capotô, mas num deu pra vê direito” - um pedestre que assistiu ao acidente comenta com o outro que vai passando.
(B) “E aí, ô meu! Como vai essa força?” - um jovem que fala para um amigo.
(C) “Só um instante, por favor. Eu gostaria de fazer uma observação” - alguém comenta em uma reunião de trabalho.
(D) “Venho manifestar meu interesse em candidatar-me ao cargo de Secretária Executiva desta conceituada empresa” - alguém que escreve uma carta candidatando-se a um emprego.
(E) “Porque se a gente não resolve as coisas como têm que ser, a gente corre o risco de termos, num futuro próximo, muito pouca comida nos lares brasileiros” - um professor universitário em um congresso
internacional.

Alô, rede Globo, esse é o conceito de adequação / inadequação de que fala o livro "Por uma vida melhor". Se há algum absurdo nisso, como é que passou despercebido todos esses anos??? Será que o MEC tentou encobrir? Será conspiração do governo para os alunos não aprenderem a falar? Santa paciência!!! Mais uma, entre tantas, provas do seu equívoco, caros jornalistas globais.
Buscamos, agora, uma fala inadequada ao contexto. Na alternativa A e B, temos contextos de uso da língua informais. O discurso apresentado é típico da variedade popular da língua. Ambas estão ADEQUADAS, portanto. Nas letras C e D, a situação discursiva exige um grau maior de formalidade e, portanto, uma fala mais próxima da norma culta, conforme as duas alternativas apresentam. Também estão ADEQUADAS. Resta a alternativa E. A NORMA CULTA é considerada a variedade linguística  usada por pessoas que possuem curso superior completo em contextos de formalidade. O uso de expressões como "a gente" (expressão correspondente a um pronome pessoal, típico de linguagem informal), "coisa"(expressão vaga em contextos formais), "muito pouca" (problema estilístico), e "a gente / termos" (a gente concorda na 3ª pessoa do singular e 'termos' está na 1ª do plural), em um contexto que exige formalidade, demonstram INADEQUAÇÃO.

05 A expressão “pegá eles sem calça” poderia ser substituída, sem comprometimento de sentido, em língua
culta, formal, por:
(A) pegá-los na mentira.
(B) pegá-los desprevenidos.
(C) pegá-los em flagrante.
(D) pegá-los rapidamente.
(E) pegá-los momentaneamente

Engraçado... tem um exercício parecido no primeiro capítulo do livro "malhado" pela tv Bobo, solicitando a conversão da norma popular para a norma culta. Isso é ensinar a falar errado??? Eu acho que NÃO!
Voltando à questão, quem não conhece a expressão "pegar sem calça", pode tentar deduzir pelo texto formal do jogador que antecede essa expressão: "Nosso treinador vaticinou que, com um trabalho de contenção coordenada (parte do time esperar na defesa), com energia otimizada, na zona de preparação, aumentam as probabilidades de, recuperado o esférico, concatenarmos um contragolpe (recuperar a bola e fazer um contra-ataque) agudo com parcimônia de meios e extrema objetividade, valendo-nos da desestruturação momentânea (o time adversário se reorganizando no campo após ataque frustrado) do sistema oposto, surpreendido pela reversão inesperada do fluxo da ação." Acredito que dá para deduzir que o treinador orientou o time para aproveitar o oponente DESPREVENIDO. Ou seja, letra B.

Sem mais delongas, por enquanto é só. Desde o início, a proposta do ENEM vem incorporando avanços significativos no tratamento de conteúdos curriculares e vem melhorando nesse sentido - independentemente dos problemas na aplicação da prova nos últimos anos. O problema é que muitas salas de aula ainda não despertaram para essa nova realidade.

Abraço a todos.
Prof. Diogo Xavier


quarta-feira, 18 de maio de 2011

1º Encontro de Blogueiros e Redes Sociais de Pernambuco

Blogueiros, ativistas da luta pela democratização da mídia e lutadores dos movimentos sociais estão convidados a participar do 1º Encontro de Blogueiros e Redes Sociais de Pernambuco, que acontece no próximo sábado (21), das 09h às 17h30, no Centro de Convenções, auditório Ribeira.

Programação do 1º Encontro de Blogueiros

09h – Abertura
10h – Debate com Altamiro Borges e Paulo Henrique Amorim
12h – Almoço
13h30 – Oficina de blogs
15h30 – Assessoria jurídica para blogueiros
16h30 – Oficina de redes sociais
17h30 – Encerramento
Mais informações: Inamara Mélo– fone: (81) 9954-1051 e Zélito Passavante - fone: (81) 9631-1534.
As inscrições GRATUITAS já podem ser feitas gratuitamente no site http://www.blogueiros.net.br/inscricaope.php .

CÂMARA FEDERAL VAI DEBATER NOVO PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO (2011-2020) EM PE

 A Câmara Federal vai promover no dia 23/5 um debate sobre projeto de lei para o novo Plano Nacional de Educação (PNE) em Pernambuco. O Plano orientará toda a política educacional do país entre 2011 e 2020, das creches ao ensino superior. O local definido é no auditório da ALEPE – Assembléia Legislativa, a partir das 15h.

O  PNE  está atualmente sendo discutido numa Comissão Especial e tem como objetivos a elevação global do nível de escolaridade da população; melhoria da qualidade do ensino em todos os níveis; redução das desigualdades sociais e regionais no tocante ao acesso e à permanência, com  sucesso, na educação pública; a democratização da gestão do ensino público e a elevação progressiva do investimento em educação pelos três níveis de governo.

A orientação e propósito da Comissão Especial, ao abrir o debate sobre o Plano, é estimular e criar as condições para que sindicatos, movimentos sociais, educacionais e entidades ligadas à temática participem ativamente das discussões, apresentando emendas ao projeto.

A proposta do PNE tramita em caráter conclusivo na Câmara. Ou seja, assim que for aprovada pela comissão especial, seguirá diretamente para o Senado, sem precisar passar pelo Plenário, exceto se houver recurso.

De Pernambuco, o deputado Paulo Rubem Santiago é titular da Comissão de Educação e Cultura da Câmara Federal e da Comissão Especial que analisa o futuro PNE, além de ser relator setorial para o financiamento da  educação no PNE. Os deputados Paulo Rubem e Raul Henry são os autores do pedido para realização do debate em Pernambuco.

Objetivo dos debates nos Estados:

 Mobilização Nacional em torno do Plano Nacional de Educação com  vistas a estimular a discussão com os parlamentos municipais, estaduais, federais, instituições educacionais, entidades ligadas à temática e sociedade civil;

Abrir o debate  e estimular a implementação do PNE nos referidos sistemas educacionais do País;
Construir uma síntese que possa ser incorporada ao novo PNE.
 
 
METAS PREVISTAS NA PROPOSTA DO PNE 2011-2020

Investimentos públicos 

ampliar progressivamente o investimento público em educação até atingir, no mínimo, 7% do Produto Interno Bruto do País.

Professores

assegurar a existência de planos de carreira para os profissionais do magistério em todos os sistemas de ensino.

garantir que União, estados, Distrito Federal e municípios colaborem para que todos os professores da educação básica possuam formação específica de nível superior, obtida em curso de licenciatura na área de conhecimento em que atuam;

formar 50% dos professores da educação básica em nível de pós-graduação lato e stricto sensu;
garantir a todos os docentes formação continuada em sua área de atuação;

valorizar o magistério público da educação básica para aproximar o salário médio do professor com mais de onze anos de escolaridade ao rendimento médio dos demais profissionais com escolaridade equivalente.

Diretores de escolas

garantir, mediante lei específica aprovada no âmbito dos estados, do Distrito Federal e dos municípios, a nomeação de diretores vinculada a critérios técnicos de mérito e desempenho e à participação da comunidade escolar.

Educação infantil

universalizar o atendimento escolar da população de quatro e cinco anos de idade.
ampliar a oferta de educação infantil para atender a 50% da população de até três anos de idade.

Ensino fundamental

universalizar o ensino fundamental de nove anos para toda a população de seis a 14 anos de idade.

Ensino médio

elevar a taxa de matrículas no ensino médio para 85% da população entre 15 e 17 anos.
Educação profissional

oferecer pelo menos 25% das matrículas dos cursos de Educação de Jovens e Adultos (EJA) de forma integrada à educação profissional nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio;
duplicar as matrículas da educação profissional técnica de nível médio, assegurando a qualidade da oferta.

Ensino superior

 elevar a taxa bruta (índice que leva em consideração todas as faixas etárias) de matrícula na educação superior para 50% e a taxa líquida para 33% da população de 18 a 24 anos, assegurando a qualidade da oferta;

ampliar a atuação de mestres e doutores nas instituições de ensino superior para, no mínimo, 75% do corpo docente em efetivo exercício. Desse grupo, pelo menos 35% devem ser doutores;

expandir gradualmente o número de matrículas na pós-graduação stricto sensu, a fim de formar anualmente 60 mil mestres e 25 mil doutores.

Educação em tempo integral

oferecer educação em tempo integral em 50% das escolas públicas de educação básica.

Atendimento inclusivo

universalizar, para a população de quatro a 17 anos de idade, o atendimento escolar aos estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades (ou superdotação) na rede regular de ensino.

Alfabetização

elevar a taxa de alfabetização da população com 15 anos ou mais para 93,5%.
alfabetizar todas as crianças até, no máximo, os oito anos de idade;

erradicar o analfabetismo absoluto e reduzir em 50% a taxa de analfabetismo funcional (quando a pessoa lê e escreve, mas não compreende os textos).

elevar a escolaridade média dos cidadãos de 18 a 24 anos, a fim de assegurar, pelo menos, 12 anos de estudo para as populações do campo, das regiões de menor escolaridade e dos 25% mais pobres;

igualar a escolaridade média entre negros e não negros, com o intuito de reduzir a desigualdade educacional.

Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb)

atingir as seguintes médias nacionais no Ideb, criado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) em 2007 para avaliar o desempenho dos estudantes dos ensinos fundamental e médio em língua portuguesa e matemática:

IDEB
2011
2013
2015
2017
2019
2021
Anos iniciais do ensino fundamental
4,6
4,9
5,2
5,5
5,7
6,0
Anos finais do ensino fundamental
3,9
4,4
4,7
5,0
5,2
5,5
Ensino médio
3,7
3,9
4,3
4,7
5,0
5,2

domingo, 15 de maio de 2011

JORNAL NACIONAL EM MAIS UM ABSURDO DA IMPRENSA BRASILEIRA

Ao contrário de algumas postagens que aqui publico, esta deve ser lida por completo, se o leitor não quiser 'sair' com uma visão equivocada ou 'fazer feio' na hora de comentar aqui ou em qualquer outro lugar.

JORNAL NACIONAL EM MAIS UM ABSURDO DA IMPRENSA BRASILEIRA

Escrevo esta postagem com um sentimento de indignação e nojo. A imprensa brasileira mais uma vez dá mostra de sua ignorância. Quem "paga o pato"? A população como um todo, que não tem acesso a informações completas, e sim fragmentadas e dispostas de forma tendenciosa; não por impossibilidade concreta de acesso a tais informações [a internet está aí para isso], mas sim por uma cultura comodista que lhe foi ensinada.

Hoje (15/05/11) eu soube de uma reportagem exibida em destaque pelo Jornal Nacional na última sexta-feira, dia 13. O título, bem sugestivo, diz: "MEC defende que aluno não precisa seguir algumas regras da gramática para falar de forma correta". Em seguida, o subtítulo completa: "O livro de português distribuído pelo Ministério da Educação defende que a maneira como as pessoas usam a língua deixe de ser classificada como certa ou errada e passe a ser considerada adequada ou inadequada.".

Pois bem. Antes de exibir a reportagem, por escrito e em vídeo, e antes mesmo de mostrar a resposta de Marcos Bagno, professor da UNB e doutor em Linguística, ao Jornal Nacional vou tecer algumas considerações sobre o estudo da língua; a propósito, o que falarei aqui não é nenhuma novidade para a linguística e já foi repetido em várias de minhas postagens aqui no blog:
* As citações em vermelho foram retiradas do artigo "O Preconceito Lingüístico na sala de aula: atitudes de professores e alunos de 7ª e 8ª séries diante da variação lingüística", escrito por mim, Diogo Xavier, junto com Ricardo Andrade e Priscila Nunes, sob orientação de Gláucia Nascimento.

1. Todas as línguas mudam com o passar do tempo e variam geográfica e socialmente. Segundo Possenti, (apud Faraco; Tezza, 2005, p.16), a respeito da língua, dois fatos devem ser levados em conta: “a) [...] não existe nenhuma sociedade [...] na qual todos falem da mesma forma; b) a variedade lingüística é o reflexo da variedade social e, como em todas as sociedades existe alguma diferença de status [...], essas diferenças se refletem na língua”.
Em outras palavras: todas as línguas possuem variações linguísticas em um mesmo momento histórico (sem contar as mudanças ao longo do tempo). Por uma questão social, a variedade linguística usada pelas pessoas de maior capital financeiro e cultural possui um status maior, e por isso é chamada de variedade culta. Já o falar das pessoas com menor capital cultural / financeiro é chamado de variedade popular e sofre historicamente uma rejeição por parte da elite. O que não significa dizer que uma delas é correta e a outra errada.

2. os Parâmetros Curriculares Nacionais, publicados pelo Ministério da Educação, reconhecem a existência do preconceito lingüístico e os prejuízos que acarreta na sala de aula:

O problema do preconceito disseminado na sociedade em relação às falas dialetais deve ser enfrentado, na escola [...] Para isso, e também para poder ensinar Língua Portuguesa, a escola precisa livrar-se de alguns mitos: o de que existe uma única forma “certa” de falar ─ a que parece com a escrita ─ e o de que a escrita é o espelho da fala [...] Essas duas crenças produziram uma prática de mutilação cultural que, além de desvalorizar a forma de falar do aluno [...] denota desconhecimento de que a escrita de uma língua não corresponde inteiramente a nenhum de seus dialetos, por mais prestígio que um deles tenha em um dado momento histórico. (PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS, 2000, p.31).
Coincidência: esse trecho foi citado pela reportagem; e vejam(!), é de 2000. Por que deveria existir uma polêmica em algo tão 'antigo'? Fato: a escrita passou a existirm muito tempo depois da fala. Então por que a fala deveria ser subordinada à escrita? A língua é um fenômeno vivo e só funciona em situações concretas de comunicação; e essa é sua função: comunicar.

3. Assim, “todas as sentenças produzidas pelos falantes de uma língua são bem formadas, independentemente de serem próprias da chamada língua-padrão ou de outras variedades” (BORTONI-RICARDO, 2004, p.71). Bagno defende que à escola cabe “levar os alunos a se apoderar também das regras lingüísticas que gozam de prestígio, [...] adquirir uma competência comunicativa cada vez mais ampla e diversificada ─ sem que nada disso implique a desvalorização de sua própria variedade lingüística”. (apud Bortoni-Ricardo, 2004, p.9). A competência comunicativa vai permitir ao falante “saber coordenar satisfatoriamente o que falar e como fazê-lo, considerando a quem e por que se diz determinada coisa”.(PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS, 2000, p.31-32).
Competência comunicativa é a palavra-chave. O falante deve conhecer a norma linguística de prestígio (a norma culta) e também dominar a variedade linguística que ele aprende no dia-a-dia, em situações informais de comunicação. Em posse disso, ele vai adequar a sua fala de acordo com a situação. É como se fosse roupa: podemos usar terno, calça social e sapato num casamento, num trabalho, mas esse traje não se adequa à praia, por exemplo, onde seria adequado usar chinelos, bermuda, camiseta.


Vamos, então, à reportagem (com comentários).






Um livro de português distribuído pelo Ministério da Educação (MEC) para quase meio milhão de alunos defende que a maneira como as pessoas usam a língua deixe de ser classificada como certa ou errada e passe a ser considerada adequada ou inadequada, dependendo da situação.
Em primeiro lugar, não é "um livro de português" que defende isso, são centenas [arrisco dizer milhares] de estudos e trabalhos acadêmicos. A reportagem tenta dar a isso um ar de indecência, usando o número de alunos que receberam o livro e pelo tom em que o jornalista(?) fala [como quem diz: assaltantes explodem mais um caixa eletrônico.]
Na semana em que o Jornal Nacional tem discutido os maiores problemas do Brasil na educação, os argumentos da autora do livro e as reações que provocaram estão na reportagem de Júlio Mosquéra.
O fato de os problemas da educação brasileira serem discutidos durante a semana dá a entender que a abordagem do livro é mais um desses problemas. Mais um exemplo de tendenciosismo, que influenciou milhares ou milhões de brasileiros que assistiram à matéria. Outro ponto: reações de quem??? Só se for dos jornalistas, para quem a linguística é o estudo da fonética e fonologia.
A defesa de que o aluno não precisa seguir algumas regras da gramática para falar de forma correta está na página 14 do livro “Por uma vida melhor”. O Ministério da Educação aprovou o livro para o ensino da língua portuguesa a jovens e adultos nas escolas públicas.
Para sua informação, sr. jornalista, todas as sentenças proferidas por um usuário da língua materna seguem uma gramática, que é o conjunto de regras que regem a variedade linguística em uso. Faz parte da gramática da variedade linguística popular, por exemplo, a regra de que, para indicar o plural, basta que uma das palavras da frase seja pluralizada (a primeira, geralmente), como no exemplo que a reportagem dará a seguir. Por outro lado, não conheço nenhum falante nativo que diga "O menina saíram", porque não faz parte da gramática de nenhuma variedade da língua.
Ele apresenta a frase: "Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado", com a explicação: "Na variedade popular, basta que a palavra ‘os’ esteja no plural". "A língua portuguesa admite esta construção".
A orientação aos alunos continua na página 15: "Mas eu posso falar 'os livro'?". E a resposta dos autores: "Claro que pode. Mas com uma ressalva, ‘dependendo da situação a pessoa corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico'".
Reitero: PODE, se a situação de uso da língua permitir - na praia, com os amigos, ADEQUADO. Numa entrevista de emprego, INADEQUADO.
Heloísa Ramos, uma das autoras do livro, disse que a intenção é mostrar que o conceito de correto e incorreto deve ser substituído pela ideia de uso adequado e inadequado da língua. Uso que varia conforme a situação. Ela afirma que não se aprende o português culto decorando regras ou procurando o significado de palavras no dicionário.
 E ela está certa. Se fosse possível aprender a norma culta com regras e dicionário, o professor da língua materna seria dispensável. Ou não. Ainda assim, seria preciso aprender a articular essa norma com a norma popular para saber adequar à situação.
“O ensino que a gente defende e quer da língua é um ensino bastante plural, com diferentes gêneros textuais, com diferentes práticas, diferentes situações de comunicação para que essa desenvoltura linguística aconteça”, declarou ela.
Não é novidade. Ainda há muitos professores que não colocam isso em prática, mas novidade não é.
O Ministério da Educação informou em nota que o livro “Por uma vida melhor” foi aprovado porque estimula a formação de cidadãos capazes de usar a língua com flexibilidade. Segundo o MEC, é preciso se livrar do mito de que existe apenas uma forma certa de falar e que a escrita deve ser o espelho da fala.
O jornalista demostra sua falta de conhecimento da norma culta com uma falha no paralelismo, o que causa confusão no entendimento. O MEC não afirma que a escrita deve ser o espelho da fala, como dá a entender, e sim que "é preciso se livrar do mito de que existe apenas uma forma certa de falar e DO MITO DE que a escrita deve ser o espelho da fala."
O Ministério da Educação disse que a escola deve propiciar aos alunos jovens e adultos um ambiente acolhedor no qual suas variedades linguísticas sejam valorizadas e respeitadas, para que os alunos tenham segurança para expressar a "sua voz".
A doutora em sociolinguística Raquel Dettoni concorda que é preciso respeitar o falar popular, que não pode ser discriminado. Mas ela enfatiza que a escola tem um objetivo maior, que é ensinar a língua portuguesa que está nas gramáticas.
O uso do MAS denota que Raquel Denotti [que também deve ter sentido nojo da reportagem] vai de encontro ao pensamento da autora do livro, o que não é verdade. No livro, aliás, a norma culta é o objetivo maior, porém em articulação com a norma popular para ampliar a competência comunicativa do aluno. A reportagem, além disso, usa indiscriminadamente a palavra GRAMÁTICA, que pode ter vários significados, o que é ignorado pelo jornalista.
“Se a escola negligencia em relação a este conhecimento, o aluno terá eternamente uma lacuna quando ele precisar fazer uso disso no seu desempenho social. Nós não podemos desconsiderar que a função social da escola, com relação ao ensino de língua portuguesa, é - em princípio - prioritariamente ensinar os usos de uma norma mais culta”, destacou.
O Ministério da Educação informou ainda que a norma culta da língua portuguesa será sempre a exigida nas provas e avaliações.
Eu também exijo dos meus alunos a norma culta da língua portuguesa. E não há contradição nisso. É preciso dominar a norma de prestígio e a norma popular, para que o aluno possa adequar sua linguagem ao máximo de situações comunicativas possível.

O link para a reportagem sem meus comentários:
http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/05/mec-defende-que-aluno-nao-precisa-seguir-algumas-regras-da-gramatica-para-falar-de-forma-correta.html


ACREDITO QUE, ATÉ AQUI, A POSTAGEM FOI SUFICIENTE PARA ESCLARECER O QUE HÁ DE ABSURDO NA REPORTAGEM DO JN. Mas ainda sinto necessidade de expor a ótima resposta de Marcos Bagno, doutor em Linguística e autor de vários livros sobre variação linguística, ensino da língua portuguesa, precoceito linguístico, norma culta, etc.




POLÊMICA OU IGNORÂNCIA? DISCUSSÃO SOBRE LIVRO DIDÁTICO SÓ REVELA IGNORÂNCIA DA GRANDE IMPRENSA

Marcos Bagno
Universidade de Brasília
Para surpresa de ninguém, a coisa se repetiu. A grande imprensa brasileira mais uma vez exibiu sua ampla e larga ignorância a respeito do que se faz hoje no mundo acadêmico e no universo da educação no campo do ensino de língua.
Jornalistas desinformados abrem um livro didático, leem metade de meia página e saem falando coisas que depõem sempre muito mais contra eles mesmos do que eles mesmos pensam (se é que pensam nisso, prepotentemente convencidos que são, quase todos, de que detêm o absoluto poder da informação).
Polêmica? Por que polêmica, meus senhores e minhas senhoras? Já faz mais de quinze anos que os livros didáticos de língua portuguesa disponíveis no mercado e avaliados e aprovados pelo Ministério da Educação abordam o tema da variação linguística e do seu tratamento em sala de aula. Não é coisa de
petista, fiquem tranquilas senhoras comentaristas políticas da televisão brasileira e seus colegas explanadores do óbvio.
Já no governo FHC, sob a gestão do ministro Paulo Renato, os livros didáticos de português avaliados pelo MEC começavam a abordar os fenômenos da variação linguística, o caráter inevitavelmente heterogêneo de qualquer língua viva falada no mundo, a mudança irreprimível que transformou, tem transformado, transforma e transformará qualquer idioma usado por uma comunidade humana. Somente com uma abordagem assim as alunas e os alunos provenientes das chamadas “classes populares” poderão se reconhecer no material didático e não se sentir alvo de zombaria e preconceito. E, é claro, com a chegada ao magistério de docentes provenientes cada vez mais dessas mesmas “classes populares”, esses mesmos profissionais entenderão que seu modo de falar, e o de seus aprendizes, não é feio, nem errado, nem tosco, é apenas uma língua diferente daquela — devidamente fossilizada e conservada em formol — que a tradição normativa tenta preservar a ferro e fogo, principalmente nos últimos tempos, com a chegada aos novos meios de comunicação de pseudoespecialistas que, amparados em tecnologias inovadoras, tentam vender um peixe gramatiqueiro para lá de podre.
Enquanto não se reconhecer a especificidade do português brasileiro dentro do conjunto de línguas derivadas do português quinhentista transplantados para as colônias, enquanto não se reconhecer que o português brasileiro é uma língua em si, com gramática própria, diferente da do português europeu, teremos de conviver com essas situações no mínimo patéticas.
A principal característica dos discursos marcadamente ideologizados (sejam eles da direita ou da esquerda) é a impossibilidade de ver as coisas em perspectiva contínua, em redes complexas de elementos que se cruzam e entrecruzam, em ciclos constantes. Nesses discursos só existe o preto e o branco, o masculino e o feminino, o mocinho e o bandido, o certo e o errado e por aí vai.
Darwin nunca disse em nenhum lugar de seus escritos que “o homem vem do macaco”. Ele disse, sim, que humanos e demais primatas deviam ter se originado de um ancestral comum. Mas essa visão mais sofisticada não interessava ao fundamentalismo religioso que precisava de um lema distorcido como “o homem vem do macaco” para empreender sua campanha obscurantista, que permanece em voga até hoje (inclusive no discurso da candidata azul disfarçada de verde à presidência da República no ano passado).
Da mesma forma, nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades linguísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais
vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não significa automaticamente combater a outra. Defender o respeito à variedade linguística dos estudantes não significa que não cabe à escola introduzi-los ao mundo da cultura letrada e aos discursos que ela aciona. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem! Parece óbvio, mas é preciso repetir isso a todo momento.
Não é preciso ensinar nenhum brasileiro a dizer “isso é para mim tomar?”, porque essa regra gramatical (sim, caros leigos, é uma regra gramatical) já faz parte da língua materna de 99% dos nossos compatriotas. O que é preciso ensinar é a forma “isso é para eu tomar?”, porque ela não faz parte da gramática da maioria dos falantes de português brasileiro, mas por ainda servir de arame farpado entre os que falam “certo” e os que falam “errado”, é dever da escola apresentar essa outra regra aos alunos, de modo que eles — se julgarem pertinente, adequado e necessário — possam vir a usá-la TAMBÉM. O problema da ideologia purista é esse também. Seus defensores não conseguem admitir que tanto faz dizer assisti o filme quanto assisti ao filme, que a palavra óculos pode ser usada tanto no singular (o óculos, como dizem 101% dos brasileiros) quanto no plural (os óculos, como dizem dois ou três gatos pingados).
O mais divertido (para mim, pelo menos, talvez por um pouco de masoquismo) é ver os mesmos defensores da suposta “língua certa”, no exato momento em que a defendem, empregar regras linguísticas que a tradição normativa que eles acham que defendem rejeitaria imediatamente. Pois ontem, vendo o Jornal das Dez, da GloboNews, ouvi da boca do sr. Carlos Monforte essa deliciosa pergunta: “Como é que fica então as concordâncias?”. Ora, sr. Monforte, eu lhe devolvo a pergunta: “E as concordâncias, como é que ficam então? 


Eis, a seguir, a página do livro que causou a suposta polêmica. Clique para ampliar.
 
Abraço a todos

Professor Diogo Xavier

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